Histórias dos Parques

CAPÍTULO do livro “LEMBRAS-TE JOSÉ” escrito por David Monteiro da Costa Ferreira, onde se relembram pessoas, histórias e ruas, num período mais ou menos compreendido entre os anos setenta e, fins dos anos noventa.

Sobre o Parque, diz:

O Parque

Desde que vamos avançando na idade, temos por hábito, o costume de dizer: - antigamente é que era!

Não sei se o dizemos por saudosismo, se para justificarmos sonhos de vida não realizados, se porque realmente sendo nós, ontem, talvez mais pobres de dinheiro, éramos mais ricos de felicidade; sei que pela parte que me toca gostava bem mais da vida simples e austera de então.

Vem isto a propósito dos “parques” da minha juventude os quais, com ligeiras alterações faziam com que a partir dos meus dez, onze anos, fugisse da minha casa em Ribeirão, para me sentar e conviver com amigos nas pedras austeras dos bancos do parque Nossa Senhora das Dores, nos bancos de madeira do parque Doutor Lima Carneiro os quais, não queria ou não queríamos saber se estavam unidos fisicamente, uma vez que duas pontes os uniam, uma vez que eram unidos pela amizade que em comum lhe devotávamos.

Que é feito desse encanto que os parques exerciam sobre mim, cujos hoje raramente uso, excepto num ou noutro concerto dado pela nossa banda, pela feira das tasquinhas, por uma ou outra passagem para o outro lado, pela assistência a uma ou outra missa à Terça-feira.

Esse encanto desapareceu porque os parques estão piores? Não José. Pelo menos eu, talvez tu e talvez muitos outros digam “antigamente é que o parque era bom”, porque outrora éramos jovens, procurava-mos a aventura, o sonho e o idílio dos pôr-do-sol; a esperança do amanhã, nos suaves entardecer.

Repara que os parques vêm em parte melhorando. Tem um pobre mas mesmo assim parque infantil, uma talvez desaproveitada mas mesmo assim “casa de chã, restaurante”, tem mais verde, tem mais árvores, fruto de algum querer dos Presidentes de Junta, de um ou outro benfeitor, talvez por parte da fábrica da igreja, dos Presidentes de Câmara.

Não sei se vai haver ou não remodelação. Não sei se vai haver ou não união dos parques. Não sei se fomos ou não burlados nos dossiers linha do Minho/Metro. Sei que não quero ter ainda mais saudades do parque da minha juventude.

O parque é essencialmente o local de culto a Nossa Senhora das Dores a qual, para além da festa em sua honra recebe diariamente a visita de inúmeros crentes da Sua Santidade. Por isso esse lugar não pondo em caus, desde que boas, obras a realizar deve ter, como estou certo vai ter em conta a especificidade do lugar, mas deve ter também em conta que, pelo facto de se situar no centro da Cidade, dia a dia mais despovoado, pode e deve suportar equipamentos que devolvam a esse centro cívico e comercial a pujança de outrora.

O comércio florescente resulta do ajuntamento de pessoas e nunca pelo seu isolamento.

Os concelhos e freguesias vizinhas estão a modernizar-se, a chamar multidões, nomeadamente aos Domingos, e a Trofa, a continuar neste passo de caracol e indecisão própria ou provocada, corre o risco de, partindo muito tarde, perder a corrida.

Eu José, tenho um desgosto embora em fase embrionária que consiste no facto de que após a passagem a concelho termos vindo ano após ano a perder o espírito de união característico das nossas gentes, em que éramos justamente conhecidos por sermos um por todos e todos por um, por troca de tudo pelo nosso partido, nada contra ele.

Talvez porque o nosso adversário comum tivesse um nome. Chamava-se Santo Tirso.

Hoje cada um defende o deu próprio quintal, as ideia do seu partido, e muitas vezes nem uma coisa nem outra. Falamos por falar, criticamos por criticar e, não assumimos o interesse do conjunto.

Perguntas-me se eu escapo. Claro que não. Sou exactamente igual a todos os outros com a diferença de que com a ajuda também da “Senhora das Dores”, procuro errar menos no julgamento de terceiros e especialmente, procuro não estorvar quem trabalha. Peço também a Nossa Senhora que ajude a parar a estagnação da Trofa, a perda contínua do tecido empresarial, que ajude o poder a que dê um abanão, antes que seja tarde.

Vou-te contar José três histórias que aconteceram no Parque, vamos conhecer alguns dos seus vizinhos, vamos primeiro caracterizar esse mesmo parque.

O parque Nossa Senhora das Dores, a par da Nacional 104, é “irmão gémeo” do Parque Lima Carneiro, como já afirmei, ficam no coração da Cidade da Trofa, com cerca de cinco hectares, medidos a olho, densamente arborizados.

Como complementos desse arvoredo, existe a pequena mas lindíssima Capela construída creio que pelo Conde de São Bento, em honra de Nossa Senhora das Dores. Paredes meias existe um pequeno mas elegante lago com chafariz e alguns peixes, dois coretos que merecem um pouco mais de atenção no seu conjunto, nomeadamente nos apêndices que suportam mais elementos das bandas que aí actuam, um pequeno e desactualizado parque infantil, um naco de terra asfaltado e de gosto duvidoso.

Possui a toda a volta ruas bastantes simpáticas com muita sombra protectora, uma meia dúzia de robustas mesas em granito que podem proporcionar oportunidade para alguns lanches trazidos por pessoas que eventualmente nos visitem sendo certo que essas pessoa em o querendo, dispõem nesta Cidade de inúmeros restaurante com qualidade gustativa comprovada.

Uma desactivada (acredito que temporariamente) linha do caminho de ferro, divide esses parques que se atravessam por um ponte e por um passadiço espero que também provisório, sendo que o parque de Lima Carneiro é mais moderno, os jardins mais burilados, tem um monumento evocativo da Defesa da Barca aquando das invasões francesas e a estátua do benemérito Conde de São Bento.

Na sua periferia coexistem lojas dos mais diversos ramos, desde cafés, pastelaria e restaurantes, a ourivesarias, lojas de informática, concertos para calçado, minimercados, talhos, garrafeiras, lojas de roupa, chinesices, oficinas de automóveis, electrodomésticos, drogarias, companhias de seguros, etc.

Tenho José, três histórias para te contar, acontecidas neste curto espaço de terreno. Uma história de amor, uma de heroísmo e tragédia, uma outra de traição.

As três histórias são verdadeiras, todos os autores das histórias são falecidos. Sobre a terceira, sendo um exemplo daquilo que os filhos não devem fazer aos pais, conhecendo alguém, alguma história com gente viva, essa história, não passa de mera coincidência.

A primeira história, de resto a última a acontecer, trata do falecimento do casal “Paredes”, ele de nome Mário, ela Odete.

Deves lembrar-te deles pois faleceram há muito pouco tempo sendo que o passo para o papel porque a memória dos homens é curta, e ficando esta escrita, poderão os vindouros e os “casa, descasa” do Jô Soares, servir-se dela para através dela, procurarem viver uma vida melhor vivida.

Este casal, então muito conhecido nesta Cidade, foi esmerado educador de numerosa prole.

Viveram em comunhão de bens, em comunhão de alegrias, em comunhão de tristezas, de ilusões e de desilusões ao longo de dezenas de anos, servindo o seu modelo de vida para dar aos jovens de hoje, um claro exemplo da forma como se deve namorar, se deve preparar o casamento com vista a enfrentarem juntos o tenebroso mundo de hoje, repleto de armadilhas propostas pela sociedade de consumo, pelo constante apelo do aparentemente fácil, pelo constante desagregar da família facilitada por aqueles que legislam o facilitismo.

Primeiro com o permitir do aborto e divórcio à lá minuta, depois o casamento gay.

Não sou nenhum Santo, José mas, sinceramente com este espírito de facilitismo, com este desapego aos valores da Igreja, que são de uma maneira geral aqueles preceitos que nos podem guiar no nosso dia a dia, temo uma espécie de Sodoma e Gomorra, actualizada aos nossos tempos.

Mas, foi aquando da sua morte física que eu interiorizei o pensamento de que seria impossível, (a não ser no cinema ou no teatro, com o amor de perdição de Camilo e Romeu e Julieta de Shakespeare) prova de tanta afeição, tanto amor respeito e saudade.

De facto, falecido que foi o esposo, a senhora, sem o companheiro de todos os dias, não resistiu, vindo a falecer dois ou três dias depois talvez esperançada em o reencontrar no hipotético Reino de Deus.

Foram seus filhos Mário, Odete, Edviges, António e José.

A segunda história passou-se com o jovem Nelson, filho do falecido Zeca Serra, o qual Nelson gostava de brincar quando criança de tenra idade no parque e nos seus arredores, nomeadamente nas imediações da linha do caminho-de-ferro.

Um dia, no decorrer das suas brincadeiras, o Nelson apercebeu-se de que uma criança, ainda mais criança do que ele, se encontrava no meio da linha, paralisada; talvez de medo, perante um comboio que se aproximava vertiginosamente dessa criança indefesa.

Afoito sem olhar ao perigo o muito jovem Nelson, lançou-se para a linha e, pegando nela ou a empurrando, não estou certo, salvou-a de morte certa.

A sua coragem, consciente ou inconsciente, foi de tal monta que nesse ano foi a Lisboa receber uma condecoração do Governo, destinada a premiar actos de valentia.

Existe uma frase na boca dos portugueses católicos que afirma: - Deus não dorme.

Sou daqueles que acreditando que existe algo ou alguém acima de nós, a quem damos o nome de Deus, acredito que esse Deus tem de ter uma hora de descanso pois, são tantas as solicitações de ajuda que lhe fazemos, acontecem tantas catástrofes, cometem-se tantas injustiças, existe tanta maldade em alguns homens, que a execução destas maldades, a existência de tais catástrofes, e as injustiças que acontecem somente podem suceder enquanto descansa.

Não estou a brincar José. Acho a natureza animal, vegetal e mineral tão perfeitos, tão inter ligadas que teve de ser criada por alguém, por alguém a que convencionamos chamar Deus que ao sétimo dia descansou. Algo ou alguém acima de todos nós.

Agora, como se apresenta esse Deus? Como chegar até ele? Como termos a certeza de que Ele existe mesmo de forma a que nos consigne algum medo na hora de chegarmos à sua presença e assim nos “obrigue” a reflectirmos nos nossos actos em relação ao nosso próximo.

Estamos numa zona boa para reflectirmos. Estamos junto da capela de Nossa Senhoras das Dores, mãe de seu filho Jesus.

Não perdes tu, nem perco eu em a visitar e junto dela pensarmos sobre o pobre Mundo em que vivemos.

Voltemos ao Nelson. Um nefasto dia, anos volvidos, deslocando-se de Famalicão para a Trofa, no seu ou no carro de um amigo, na curva imediatamente anterior à ponte sobre o Rio Ave, este despistou-se, caindo a um campo, depois de derrubar uma parede de xisto.

Durante o acontecimento, uma pedra solta, elevou-se nos ares, sendo que ao cair esmagou literalmente o jovem que entretanto tinha sido cuspido do carro em que seguia.

Aconteceu durante o descanso de Deus

A terceira e última história, passou-se há muitos e muitos anos conta o drama de uma família, pai e mãe atraiçoados por um filho.

Esta terceira história, pelas suas características não permite a divulgação dos seus nomes e alguma coincidência com acontecimento actuais, é mesmo coincidência.

Os pais possuíam um prédio novo ao tempo que esta história aconteceu.

O filho convidou os pais já idosos a venderem a referida casa e a comprar um apartamento novo em nome desse filho, o qual lhes jurava amor eterno e guarida junto de si para o resto dos seus dias.

Pais são pais e portanto confiam cegamente nos seus filhos pelo que fácil foi satisfazer-lhe o pedido.

A vida dá muitas voltas e o casamento é uma delas pelo que o rapaz em casando, cedo viu na sua companheira desejos de se ver livre “dos velhos”, com a esfarrapada desculpa de que os mesmos lhe tolhiam a felicidade.

Nestas coisas do coração, sabemos que a alcova pode ser boa ou má conselheira. Neste caso o mal venceu duas vezes. A primeira quando conseguiu expulsar os pais de casa. A segunda, ser o próprio filho expulso pela companheira e ficar sem a casa, a favor da estimada conjugue a qual, também teve artimanhas para armadilhar o marido.

Assim vamos caminhando neste vale de sorrisos e de lágrimas sobrando maldade e faltando solidariedade num louco caminhar em direcção ao abismo.

Porque valores como a família e a religião se vão perdendo, em favor de um laicismo e de um fundamentalismo ferozmente implantados de tal forma que um dia poderemos voltar ao tempo dos Romanos, tempo em que os Cristãos por o serem, eram ferozmente perseguidos e mortos, pelo que me despeço do Parque pedindo José, a Nossa Senhora que interceda junto de Deus para que ele ponha um pouco mais de juízo na cabeça dos homens.

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